Para o reitor da Unicamp, José Tadeu Jorge o Brasil é o único país que pode conciliar a produção de alimentos e a de biocombustíveis
Daniela Amorim de Campinas para o "JC e-mail" (18/7/2008):
O Brasil se tornará um dos países mais desenvolvidos do mundo, se conciliar a produção de alimentos com a produção de biocombustível. A previsão é do reitor da Unicamp, o engenheiro de alimentos José Tadeu Jorge, que ministrou um simpósio nesta quinta-feira, durante a 60ª Reunião Anual da SBPC.
"Na verdade são duas oportunidades internacionais que se oferecem ao país. Na minha opinião, a oportunidade como exportador de alimentos é ainda maior do que a de produtor de etanol. Mas não precisamos escolher. Podemos fazer as duas coisas. O Brasil é o único país que pode conciliar essas duas coisas: a produção de alimentos e a de biocombustíveis", afirmou José Tadeu Jorge.
Mas o reitor ressaltou a importância de estabelecer uma política agrícola baseada nos fundamentos da agropecuária, para que o cultivo de alimentos não dê lugar ao cultivo de cana-de-açúcar, matéria-prima para a produção de etanol.
"O Brasil é o maior exportador de laranjas do mundo. Mas cinco boas safras de laranja na Flórida podem derrubar os preços. Corremos o risco de produtores de laranjas optarem por não encarar a briga do mercado e substituírem as plantações de laranja por cana. É financeiramente mais atraente", alertou o engenheiro. "Por isso o governo não pode deixar correr solto. É preciso planejamento, uma política consistente para aproveitar as oportunidades que se apresentam".
Entre as políticas sugeridas pelo especialista está o incentivo ao plantio de gêneros de interesse do país, como o trigo, o zoneamento de culturas e a criação de infra-estrutura, como estradas, assistência técnica e diminuição de impostos. A preservação ambiental também tem que estar na agenda da agricultura, uma vez que as florestas regulam o clima e garantem água às plantações.
"Um componente fundamental de qualquer política agrícola é a conservação ambiental. A água é imprescindível para a agricultura", ressaltou o reitor.
José Tadeu Jorge rebateu as críticas feitas por ativistas e organismos internacionais de que o Brasil estaria causando a alta de preços dos alimentos graças à sua política de incentivo à produção do etanol.
"Uma tabela da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) com dados de 2000 a 2008 mostra que o preço dos alimentos permaneceu estável entre 2000 e 2002. O preço começa a aumentar em 2004, coincidindo com o anúncio da intenção de investir em biocombustíveis, e, à medida que os anos avançam, percebe-se uma intensificação no ajuste dos preços, principalmente nos últimos dois anos. Essa intensificação de fato coincide com o aumento da produção de álcool no Brasil e nos Estados Unidos. Mas cabe analisar com cuidado as relações de causa e efeito", explicou.
A soja registrou um dos maiores aumentos de preço. Em 2000, a saca do produto custava US$ 11,4, enquanto hoje está US$ 28,7.
"Isso nos levaria a concluir que o Brasil está deixando de plantar soja para produzir etanol, certo?", questionou.
O trigo, o arroz e o milho também registraram aumento de acordo com a tabela da FAO. Mas o pesquisador salienta que não são apenas os alimentos que estão ficando mais caros.
"O barril de petróleo saiu de US$ 28, em 2000, para US$ 121 em 2008. A tonelada do cobre custava US$ 1.813 e, em 2008, já era vendida a US$ 8.018. Isso significa que estão diminuindo a produção do cobre ou aumentando a procura? O alumínio passou de US$ 1.548 a tonelada, em 2000, para US$ 2.850 a tonelada, em 2008. Ninguém substitui a produção de alumínio para produzir etanol", ponderou.
"Ganha consistência a argumentação de que o aumento de preços dos alimentos é uma questão econômica global, e não um fator localizado".
O engenheiro de alimentos afirma que o comportamento de preços, nesse caso, é uma questão meramente econômica. Ele diz que as pessoas passaram a ter mais dinheiro, maior poder de compra, aumentando a demanda e, conseqüentemente, provocando a elevação dos preços.
"Quando as pessoas ganham dinheiro, a primeira coisa que compram é alimentos. Saciada a necessidade de alimentos, começam a comprar outras coisas com o que sobra. A demanda que cresce mais rápido é a demanda por comida. E a maior demanda gera aumento dos preços", explicou.
Para comprovar a tese de que o Brasil não deixou de plantar alimentos para cultivar cana-de-açúcar, José Tadeu Jorge apresentou números que mostram o aumento da área cultivada e da produção de gêneros alimentícios, inclusive a soja.
"A produção brasileira de soja é crescente. Portanto, não existe a substituição da produção de soja por cana. Pelo contrário, o Brasil aumentou muito a oferta de soja. Em 86/87, o país produzia 17 mil toneladas de soja, e, em 2005/2006, já produzia mais de 55 mil toneladas", contou.
Segundo números apresentados pelo pesquisador, a taxa de crescimento da produção de alimentos do Brasil é muito maior do que a taxa de crescimento da produção mundial. De 96 a 2006, o crescimento da produção brasileira foi de 9,4%. No mesmo período, o crescimento da produção alimentícia na União Européia e nos Estados Unidos – os líderes em volume de exportação – foi de 3,4% e 1,4%, respectivamente. A produção da China cresceu 8,4%, também atrás da brasileira.
"O Brasil tem cerca de 851 milhões de hectares. Destes, 470 milhões de hectares não podem ser utilizados, porque são a nossa herança e riqueza, como a Amazônia, centros urbanos, rios, reservas, unidades de preservação. Outros 220 milhões de hectares são destinados à criação animal e 70 milhões estão ocupados por plantações. Ainda assim, temos 90 milhões de hectares de área agricultável. Ou seja, nós temos uma área de potencial agrícola ainda maior do que a área que já usamos hoje. Nenhum outro país do mundo tem uma condição como esta. O Brasil precisa é de uma política agrícola, coisa que nunca teve", concluiu.
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