Monday, September 29, 2008

Valor Econômico: Parques tecnológicos crescem à sombra das grandes universidades

O aumento no nr. de parques tecnológicos no Brasil representa importante apoio de infra-estrutura para a captação de investimentos em tecnologia e inovação.

Visitei o TecnoPuc, em Porto Alegre, e fiquei impressionado com o profissionalismo e a excelência das instalações. É um condomínio de empresas de alta tecnologia, construído onde funcionava um antigo quartel de cavalaria. Prevêem expandir o parque para outra área, já adquirida pela PUC-RS, onde funcionava um seminário católico. Há algo de simbólico em ver exército e igreja cedendo espaço para ciência e inovação no Brasil.

Everton

 

 

País já tem 57 parques tecnológicos, 80% no sul e no sudeste

Jacílio Saraiva escreve para o “Valor Econômico”:

Entre unidades em operação, em implantação e em desenvolvimento, o Brasil tem 57 parques tecnológicos. Cerca de 80% deles estão nas regiões Sul e Sudeste, faturam R$ 1,2 bilhão por ano e abrigam 350 empresas - 90% são pequenas e médias companhias. Do total faturado, R$ 200 milhões são obtidos com a exportação de produtos.

Quem tem esses dados é José Eduardo Fiates, conselheiro da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec), que realizou, junto com o Sebrae, o XVIII Seminário Nacional de Parques Tecnológicos e Incubadoras de Empresas, encerrado na semana passada, em Aracaju (SE).

"Os parques são como shopping centers do conhecimento, com empresas no lugar de lojas e um ambiente favorável para fazer pesquisas e negócios", compara. Fiates é o idealizador da pesquisa Parques Tecnológicos no Brasil-Estudo, Análise e Proposições, realizada com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial-ABDI.

O levantamento fez uma estimativa dos investimentos necessários para fazer dos parques brasileiros verdadeiros oásis para o desenvolvimento de produtos inovadores. Para Fiates, o valor médio de aportes públicos para a implantação de um centro com 40 companhias é de R$ 32,5 milhões, em cinco anos. Cada unidade pode gerar 7,5 mil empregos e mais de R$ 300 milhões em receita, no mesmo período.

"Do total de parques nacionais, cerca de 20 têm potencial de copiar, em cinco anos, o mesmo estágio de excelência de unidades internacionais", diz ele. Para fazer a pesquisa, Fiates visitou centros tecnológicos modelos em Taiwan e na Finlândia e garante que a média de exportação de um único complexo taiwanese chega a US$ 16 bilhões por ano, enquanto todos os empreendimentos brasileiros exportam, juntos, US$ 200 milhões. "O Brasil precisa de uma estratégia para desenvolver melhor os parques que têm e os que ainda vão surgir," diz ele.

Esse setor não pára de crescer. Prova disso são novas unidades e ampliações de operações em São Paulo, Pará e Sergipe, que aproveitam a proximidade com universidades locais e a vocação econômica das regiões para fortalecer projetos de pesquisa.

O Parque Tecnológico de Ribeirão Preto (SP), previsto para sair do papel em 2009, quer se destacar em pesquisas na área médica e odontológica e deve receber 50 empresas. Com 1,1 milhão de metros quadrados, o empreendimento, avaliado em R$ 151 milhões, será construído ao lado do campus da Universidade de São Paulo-USP, de Ribeirão Preto, reconhecida pelos cursos na área da saúde.

"A região já abriga mais de 40 companhias de equipamentos médicos", diz Geciane Porto, diretora-presidente da Fundação Instituto Pólo Avançado da Saúde de Ribeirão Preto-Fipase, uma das gestoras do projeto.

Criado em 2003, o Sergipe Parque Tecnológico-SergipeTec, em São Cristóvão (SE), tem 141 mil metros quadrados e uma infra-estrutura que custou R$ 12 milhões. Vizinho da Universidade Federal de Sergipe-UFS, pesquisas biotecnologia, TI e energia.

No setor de biotecnologia, o foco é o agronegócio, com ênfase na fruticultura. Na área de tecnologia, os pesquisadores querem desenvolver softwares para a gestão pública. "Já os estudos em energia vão privilegiar fontes renováveis, petróleo e gás", afirma José Teófilo de Miranda, diretor-presidente do SergipeTec, que conta com 23 empresas.

O interesse do parque sergipano em energia é porque o Estado é o quarto produtor nacional de petróleo, tem o maior campo em terra e mais de 20 plataformas no seu litoral. O centro tecnológico vai ser usado como suporte ao Programa de Biodiesel de Sergipe, que pretende delimitar mais de 50 mil hectares de plantação de oleaginosas e erguer uma usina esmagadora de grãos com distribuição regional.

Quatro mil agricultores familiares estão envolvidos no tratamento de sementes de girassol, com remessas garantidas para a usina de Candeias (BA). Ao longo dos próximos três anos, o programa deve gastar R$ 13 milhões em pesquisas.

O parque sergipano também vai sediar uma biofábrica, a primeira do Estado, numa área de 3,6 mil metros quadrados e R$ 2,1 milhões em investimentos. A unidade, prevista para funcionar a partir do final deste ano, promete entregar, em um ano, 250 mil mudas de abacaxi e banana mais resistentes às pragas agrícolas. Uma outra fábrica vai criar inimigos naturais para o combate de pestes na citricultura e nas plantações de cana-de-açúcar.

Há duas semanas, na região metropolitana de Belém (PA), ao lado do campus da Universidade Federal do Pará-Ufpa, foi lançada a pedra inaugural do Parque de Ciência e Tecnologia de Guamá, com 72 hectares de área. O centro de pesquisa deve estar pronto em 2010 e aposta em estudos de TI, energia, tecnologia do alumínio e biotecnologia - de olho na biodiversidade amazônica.

A Vale e a Eletronorte, além do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais-Inpe, já garantiram lotes no parque. O investimento em infra-estrutura chega a R$ 46 milhões, com recursos da Ufpa, governo do Pará e BNDES.

"A expectativa é receber até 200 empresas e 20% delas já estarão aqui no primeiro ano de funcionamento", promete Elane Ribeiro, coordenadora de incubadoras de empreendimentos e parques tecnológicos do governo paraense. O centro, o primeiro do gênero na região Norte, também vai ter oito laboratórios de desenvolvimento dirigidos por professores de universidades federais da região - mas não será o único. Marabá e Santarém devem ganhar seus próprios centros de pesquisa nos próximos dois anos.

Experiências no exterior funcionam como inspiração

Experiências bem-sucedidas no exterior podem inspirar os parques tecnológicos brasileiros a criar novas estratégias de gestão e geração de conhecimento. Segundo pesquisa realizada pela Associação Internacional de Parques Tecnológicos-Iasp com 276 complexos, 67,8% mantêm algum tipo de rede para a transferência de tecnologias. Atualmente, existem 1,2 mil centros tecnológicos no mundo.

"Do total pesquisado, quase 90% afirma que as empresas abrigadas nos parques também participam de algum tipo de rede de conhecimento", afirma Paulo Miranda, diretor de projetos da Iasp. A entidade, sediada em Málaga, Espanha, reúne mais de 300 parques de 81 países.

No Brasil, um dos principais desafios é vencer a dependência de recursos públicos. "Temos que sintonizar as linhas de pesquisa com prioridades regionais, nacionais e internacionais e contar com aportes regulares", analisa José Eduardo Fiates, conselheiro da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores-Anprotec.

A França dividiu o país conforme regiões de desenvolvimento e pólos de inovação já existentes para facilitar o ingresso de empresas e investidores locais e estrangeiros. Foram eleitas seis áreas principais e 20 zonas com potencial de investimento. "Isso ajuda os empresários a saber onde montar um negócio com chances de crescimento e retorno financeiro", diz Fiates.

No Reino Unido, a National Industrial Symbiosis Programme-Nisp (Programa Nacional de Simbiose Industrial) facilita a troca de experiências e negócios entre empresas de diversos setores e tamanhos - sem cobrar nada. "80% dos participantes da rede são companhias de pequeno porte", diz Paul Knuckle, gerente de desenvolvimento comercial da entidade de dez mil membros, criada em 2005, e que mantém corporações como Shell e NEC como consultores.

Segundo o executivo, ao entrar na rede, a empresa informa o que oferece e o que gostaria de obter e o Nisp realiza o intercâmbio entre as companhias. "A simbiose industrial entre as organizações sempre alavancou a inovação tecnológica", garante Knuckle, que constatou que 75% das parcerias realizadas geraram algum serviço ou produto inovador.

Financiado pelo governo inglês e por agências de desenvolvimento, o programa conseguiu espalhar 12 centros regionais no país. Entre 2005 e 2008, ações da rede conseguiram aumento de R$ 393 milhões nas vendas das empresas e ainda geraram mil novos postos de trabalho.

Até o final do ano, o Nisp desembarca no Brasil: vai ensinar sua metodologia de permutas empresariais para empresas de Minas Gerais. A criação da rede deve durar oito meses. A África do Sul e a Índia também estão na mira do programa, que já está presente na China e México. No Brasil, a Fundação Parque Tecnológico da Paraíba-PaqTcPB, em Campina Grande, a 120 km de João Pessoa, também investe na troca de experiências e de conhecimentos entre os negócios incubados no complexo.

Considerado o mais antigo parque do país, inaugurado em 1984, já colocou no mercado mais de 60 novas companhias. Recentemente, a área de cinco hectares ganhou mais três hectares - e 18 galpões industriais construídos nos anos 1920 serão reformados para sediar cerca de 20 empresas.

"Companhias como a Nokia, Accenture e a CPM Braxis já reservaram espaço na área, que vai receber R$ 15 milhões de investimentos e abrir 450 postos de trabalho nos primeiros 90 dias de ocupação", afirma Francilene Garcia, diretora do PaqTcPB. "O próximo passo é trazer para os galpões fundos de investimentos e diminuir a distância entre empresários e investidores".
(Valor Econômico, 29/9)

Monday, July 21, 2008

Brazil: The natural knowledge-economy

http://www.demos.co.uk/publications/brazil

Authors:

Kirsten Bound,

Publication Type:

Pamphlet

Publication Date:

8th July 2008

ISBN:

9781906693008

Cost:

£10.00

The landscape for innovation in Brazil is changing fast. Research budgets are rising. Brazilian scientists and innovators are at the forefront of developments from biofuels to genomics and software. And Brazil is now the fifteenth largest producer of scientific publications, up eight places in under a decade.

This report argues that Brazil is a ‘natural knowledge-economy’ where the intertwining of knowledge, skills and innovation with environmental and other natural assets holds the key to competitive advantage.

But in Europe, Brazil’s innovation capabilities are even less well understood than those of its ‘BRIC’ counterparts, China and India. This report assesses the prospects for science and technology-based innovation in Brazil over the next ten years. And it suggests how the UK and Europe can scale up collaboration with its new centres of excellence.

This report forms part of The Atlas of Ideas, a research programme on the new geography of science and innovation (www.atlasofideas.org). The project was conducted in partnership with the Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) in Brazil, and was generously funded by a consortium of partners listed on the inside cover.

 

Jornal da Ciência: O lado B do etanol

Químico chama atenção para custo social e ambiental da produção de biocombustíveis

É preciso reconsiderar o deslumbramento da opinião pública com as vantagens ambientais do etanol. Quem alerta é o químico Wilson de Figueiredo Jardim, pesquisador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em conferência na 60ª Reunião Anual da SBPC, ele chamou a atenção para aspectos que nem sempre são levados em conta na avaliação dos biocombustíveis e manifestou ceticismo quanto à possibilidade de alcançarmos um desenvolvimento sustentável se mantivermos o modelo econômico atual.

“Não há sustentabilidade possível dentro desse modelo suicida baseado no uso perdulário dos recursos naturais de que dispomos”, dispara Jardim. O químico discutiu em detalhes o caso dos biocombustíveis e em especial o do etanol, freqüentemente apresentado como uma alternativa limpa aos combustíveis fósseis.

De acordo com ele, as vantagens ambientais geralmente atribuídas a esse biocombustível levam em conta apenas a captura de carbono da atmosfera pela cana-de-açúcar via fotossíntese. Para fechar essa equação, defende o químico, é preciso considerar os custos ambientais e sociais associados a outras etapas do ciclo de produção do álcool, no campo, na destilaria e no entorno da plantação.

Entre os fatores que deveriam ser levados em conta, Jardim cita os gases de efeito-estufa gerados pelo uso de adubos no cultivo da cana e pelo transporte dos insumos e trabalhadores, os prejuízos para a atmosfera e para a saúde pública motivados pela queima da palha da cana e o grande volume de água empregado na produção.

Entre os inconvenientes da produção do etanol, Jardim destacou o grande volume de vinhoto (ou vinhaça) gerado no processo de destilação da garapa – da ordem de dez litros para cada litro de etanol produzido. Esse líquido tem grande demanda bioquímica de oxigênio e é às vezes descartado em rios. “O vinhoto produzido em 2006 – 180 bilhões de litros – equivale a todo o esgoto bruto produzido no Brasil naquele ano em termos de demanda por oxigênio”, compara.

Jardim enfatizou ainda o custo social da produção do etanol. Ele lembra que a rentabilidade do cultivo da cana e da produção melhorou muito nos últimos trinta anos, mas o pagamento dos trabalhadores não acompanhou essa melhoria. “O rendimento dos trabalhadores teve que subir pra compensar esse déficit”, explica. “A colheita de 1.000 kg de cana requer 4 mil golpes de facão e 3 mil flexões de perna. A expectativa de vida dos bóias-frias é hoje menor que a de um escravo.”

Por uma discussão mais madura

“Não sou contrário à adoção do etanol, que representa sem sombra de dúvidas uma alternativa viável aos combustíveis fósseis”, ressalta Jardim. “Defendo apenas que discutamos sua produção de forma mais madura e que consertemos as mazelas associadas à produção desse combustível para que ele seja realmente limpo.”

Jardim citou uma série de medidas que permitiriam reverter o quadro traçado por ele. O aproveitamento energético do vinhoto e o desenvolvimento da tecnologia de produção de etanol a partir da celulose, por exemplo, permitiriam minimizar o custo ambiental e social dos biocombustíveis. “Mas, acima de tudo, é preciso repensar nossa lógica de consumo”, avalia.
(Bernardo Esteves)

Friday, July 18, 2008

Alimentos e etanol podem tornar Brasil um dos países mais desenvolvidos do mundo

Para o reitor da Unicamp, José Tadeu Jorge o Brasil é o único país que pode conciliar a produção de alimentos e a de biocombustíveis

Daniela Amorim de Campinas para o "JC e-mail" (18/7/2008):

O Brasil se tornará um dos países mais desenvolvidos do mundo, se conciliar a produção de alimentos com a produção de biocombustível. A previsão é do reitor da Unicamp, o engenheiro de alimentos José Tadeu Jorge, que ministrou um simpósio nesta quinta-feira, durante a 60ª Reunião Anual da SBPC.

"Na verdade são duas oportunidades internacionais que se oferecem ao país. Na minha opinião, a oportunidade como exportador de alimentos é ainda maior do que a de produtor de etanol. Mas não precisamos escolher. Podemos fazer as duas coisas. O Brasil é o único país que pode conciliar essas duas coisas: a produção de alimentos e a de biocombustíveis", afirmou José Tadeu Jorge.

Mas o reitor ressaltou a importância de estabelecer uma política agrícola baseada nos fundamentos da agropecuária, para que o cultivo de alimentos não dê lugar ao cultivo de cana-de-açúcar, matéria-prima para a produção de etanol.

"O Brasil é o maior exportador de laranjas do mundo. Mas cinco boas safras de laranja na Flórida podem derrubar os preços. Corremos o risco de produtores de laranjas optarem por não encarar a briga do mercado e substituírem as plantações de laranja por cana. É financeiramente mais atraente", alertou o engenheiro. "Por isso o governo não pode deixar correr solto. É preciso planejamento, uma política consistente para aproveitar as oportunidades que se apresentam".

Entre as políticas sugeridas pelo especialista está o incentivo ao plantio de gêneros de interesse do país, como o trigo, o zoneamento de culturas e a criação de infra-estrutura, como estradas, assistência técnica e diminuição de impostos. A preservação ambiental também tem que estar na agenda da agricultura, uma vez que as florestas regulam o clima e garantem água às plantações.

"Um componente fundamental de qualquer política agrícola é a conservação ambiental. A água é imprescindível para a agricultura", ressaltou o reitor.

José Tadeu Jorge rebateu as críticas feitas por ativistas e organismos internacionais de que o Brasil estaria causando a alta de preços dos alimentos graças à sua política de incentivo à produção do etanol.

"Uma tabela da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) com dados de 2000 a 2008 mostra que o preço dos alimentos permaneceu estável entre 2000 e 2002. O preço começa a aumentar em 2004, coincidindo com o anúncio da intenção de investir em biocombustíveis, e, à medida que os anos avançam, percebe-se uma intensificação no ajuste dos preços, principalmente nos últimos dois anos. Essa intensificação de fato coincide com o aumento da produção de álcool no Brasil e nos Estados Unidos. Mas cabe analisar com cuidado as relações de causa e efeito", explicou.

A soja registrou um dos maiores aumentos de preço. Em 2000, a saca do produto custava US$ 11,4, enquanto hoje está US$ 28,7.

"Isso nos levaria a concluir que o Brasil está deixando de plantar soja para produzir etanol, certo?", questionou.

O trigo, o arroz e o milho também registraram aumento de acordo com a tabela da FAO. Mas o pesquisador salienta que não são apenas os alimentos que estão ficando mais caros.

"O barril de petróleo saiu de US$ 28, em 2000, para US$ 121 em 2008. A tonelada do cobre custava US$ 1.813 e, em 2008, já era vendida a US$ 8.018. Isso significa que estão diminuindo a produção do cobre ou aumentando a procura? O alumínio passou de US$ 1.548 a tonelada, em 2000, para US$ 2.850 a tonelada, em 2008. Ninguém substitui a produção de alumínio para produzir etanol", ponderou.

"Ganha consistência a argumentação de que o aumento de preços dos alimentos é uma questão econômica global, e não um fator localizado".

O engenheiro de alimentos afirma que o comportamento de preços, nesse caso, é uma questão meramente econômica. Ele diz que as pessoas passaram a ter mais dinheiro, maior poder de compra, aumentando a demanda e, conseqüentemente, provocando a elevação dos preços.

"Quando as pessoas ganham dinheiro, a primeira coisa que compram é alimentos. Saciada a necessidade de alimentos, começam a comprar outras coisas com o que sobra. A demanda que cresce mais rápido é a demanda por comida. E a maior demanda gera aumento dos preços", explicou.

Para comprovar a tese de que o Brasil não deixou de plantar alimentos para cultivar cana-de-açúcar, José Tadeu Jorge apresentou números que mostram o aumento da área cultivada e da produção de gêneros alimentícios, inclusive a soja.

"A produção brasileira de soja é crescente. Portanto, não existe a substituição da produção de soja por cana. Pelo contrário, o Brasil aumentou muito a oferta de soja. Em 86/87, o país produzia 17 mil toneladas de soja, e, em 2005/2006, já produzia mais de 55 mil toneladas", contou.

Segundo números apresentados pelo pesquisador, a taxa de crescimento da produção de alimentos do Brasil é muito maior do que a taxa de crescimento da produção mundial. De 96 a 2006, o crescimento da produção brasileira foi de 9,4%. No mesmo período, o crescimento da produção alimentícia na União Européia e nos Estados Unidos – os líderes em volume de exportação – foi de 3,4% e 1,4%, respectivamente. A produção da China cresceu 8,4%, também atrás da brasileira.

"O Brasil tem cerca de 851 milhões de hectares. Destes, 470 milhões de hectares não podem ser utilizados, porque são a nossa herança e riqueza, como a Amazônia, centros urbanos, rios, reservas, unidades de preservação. Outros 220 milhões de hectares são destinados à criação animal e 70 milhões estão ocupados por plantações. Ainda assim, temos 90 milhões de hectares de área agricultável. Ou seja, nós temos uma área de potencial agrícola ainda maior do que a área que já usamos hoje. Nenhum outro país do mundo tem uma condição como esta. O Brasil precisa é de uma política agrícola, coisa que nunca teve", concluiu.

Wednesday, July 16, 2008

Estadão: Empresários advertem para falta de cientistas nos EUA

Eles alertaram que falta de trabalhadores especializados e professores ameaça competitividade do País

Uma tentativa de grupos empresariais norte-americanos de dobrar o número de bacharéis em ciência, matemática e engenharia até 2015 está muito atrás de sua meta, disse um relatório.

Em 2005, 15 importantes empresas alertaram que a falta de trabalhadores especializados e professores era uma ameaça para a competitividade dos Estados Unidos, e disseram que o país precisava de 400 mil novos graduados no que se chama de "Stem" (Ciência, tecnologia, engenharia e matemática, na sigla em inglês) até 2015.

Em uma atualização publicada nesta terça-feira (15/7), o grupo reportou que o número de diplomas nessas áreas aumentou um pouco no início da década, citando estatísticas dos anos a partir de 2001 que se tornaram disponíveis desde o primeiro relatório. Mas o número de diplomas parou em cerca de 225 mil por ano.

A coalizão, representando grupos como a Câmara de Comércio dos EUA e a Associação Industrial de Defesa Nacional, disse que houve apoio bipartidário substancial em Washington, incluindo a aprovação de uma lei, America Competes Act, que promove a matemática e a ciência.

No entanto, Susan Traiman, diretora de educação e política de força de trabalho para a Business Roundtable, uma organização de executivos de corporações, disse que não houve investimentos suficientes para dar apoio aos programas. Outros países, ela disse, estão fazendo muito mais para direcionar investimentos para o treinamento científico.

"A preocupação dos executivos é que se esperarmos para um evento como o Sputnik, vai ser bastante difícil de conseguir movimentar os progressos que precisaríamos", disse Susan, referindo se ao lançamento do primeiro satélite artificial pelos russos em 1957, que levou os Estados Unidos a um enorme comprometimento com o avanço da ciência.

"Ainda leva um mínimo de 17 anos para produzir um engenheiro se você considerar os 12 anos de escola mais os 4 anos de faculdade", disse.

Alguns críticos manifestaram preocupações com um excesso de graduações em ciência. Eles argumentam que se realmente houvesse uma demanda por cientistas, mais estudantes naturalmente iriam para essas áreas, sem incentivos enormes patrocinados por aqueles que pagam impostos.

Mas William Green, presidente da Accenture, uma gigante da consultoria, chamou essas críticas de "sem sentido", acrescentando que todo o país se beneficia com empresas competitivas.

Green disse que a Accenture vai contratar cerca de 58 mil funcionários no mundo todo esse ano, e vai gastar US$ 780 milhões em treinamento.

O relatório feito pelo grupo Tapping America”s Potential, que já representa 16 grupos empresariais, também argumenta que a falha do Congresso em aprovar uma nova regulamentação de imigração vai dificultar a competitividade norte-americana, não permitindo que os EUA conservem os trabalhadores estrangeiros altamente qualificados que estudam nas universidades do país.
(O Estado de SP, 15/7)

Carlos Nobre: O Brasil tem todas as condições para se tornar o primeiro país tropical desenvolvido

Se decidir seguir esse caminho, vai precisar inventar um novo modelo de desenvolvimento, que reconheça o uso racional dos recursos naturais e da biodiversidade, alerta o engenheiro do Inpe

Carla Almeida escreve de Campinas para o “JC e-mail” (em 16/jul/2008):

As mudanças climáticas são reais, inequívocas e estão acelerando. Em conferência realizada nesta terça-feira, na 60ª Reunião Anual da SBPC, em Campinas, Carlos Nobre, uma das grandes presenças no debate mundial sobre as mudanças climáticas, apresentou uma série de razões para o Brasil se preocupar com isto.

A principal delas está relacionada à biodiversidade brasileira, que, segundo Nobre, está entre as principais vítimas das alterações no clima terrestre. Segundo alerta feito pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), mesmo considerando o melhor cenário de mudanças, com um aumento de temperatura entre 1,5 e 2º C, até 15% das espécies irão desaparecer.

Além disso, Nobre mencionou como prováveis efeitos das mudanças climáticas sobre o Brasil, a maior incidência de doenças tropicais, como a dengue, e a escassez de água no Nordeste, com prejuízos significativos para a agricultura da região e do país.

“O Brasil deve se preocupar sim, e nós temos uma responsabilidade muito grande.”

Assumir essa responsabilidade significa necessariamente promover o uso mais racional dos recursos naturais. “Não há outra alternativa”, disse Nobre, lembrando que o Brasil já tem metade de sua base energética movida a energias renováveis e que ainda não utiliza o potencial de sua biodiversidade.

“O Brasil tem todas as condições para se tornar o primeiro país tropical desenvolvido”, afirmou o pesquisador. Se decidir seguir esse caminho, o país vai precisar inventar um novo modelo de desenvolvimento. “Não existem modelos para o Brasil copiar. Por isso temos que inventar”.

Na contramão

Se por um lado o Brasil tem condições para se tornar uma potência ambiental, por outro, suas emissões vão na contramão de um modelo de desenvolvimento, quem dirá sustentável.

Segundo dados apresentados por Carlos Nobre, o uso da terra, lê-se desmatamento, responde por mais da metade das emissões brasileiras. Já a geração de energia, que em geral está atrelada ao desenvolvimento econômico, não responde nem por um quinto das emissões do país.

Ou seja, as emissões brasileiras não estão alimentando o crescimento econômico do país e nem aumentando a qualidade de vida de sua população, concluiu o pesquisador. “Esta talvez seja a grande tragédia brasileira na questão das emissões. É algo que precisa ser urgentemente corrigido.”

Nobre ressaltou a importância de essa discussão estar sendo feita no seio da comunidade científica, na Reunião da SBPC. Para ele, o maior desafio é “conciliar nossa necessidade de desenvolvimento com a sustentabilidade do planeta Terra.”

Inmetro e Nist (EUA) deslancham processo de medição para transformar biocombustíveis em commodities

Na 60ª Reunião Anual da SBPC é anunciada formação de grupo de trabalho em Avaliação de Ciclo da Vida para etanol e biodiesel

Flamínio Araripe escreve de Campinas para o "JC e-mail":

O Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro) e o seu similar nos Estados Unidos, o National Institute of Standards and Technology (Nist), estão fazendo o levantamento das características dos biocombustíveis dos dois países que possibilitem intercomparações e a fixação de padrão de qualidade.

O processo tem como objetivo facilitar a transição destes combustíveis para o estágio de commodities globais, uma iniciativa que abrange bioetanol e biocombustíveis de diversas origens.

O Inmetro já enviou ao Nist 10 mil amostras de bioetanol e biocombustíveis. No fluxo inverso, vieram amostras dos EUA para serem analisadas pela área científica e industrial do Inmetro. O resultado concreto do acordo de cooperação entre Inmetro e Nist será o estabelecimento de protocolo entre os dois governos que estabeleça padrões de biodiesel e etanol que sejam compatíveis internacionalmente.

O relato da cooperação bilateral foi feito por Carlos Aragão de Carvalho (UFRJ) nesta terça-feira na 60ª Reunião Anual da SBPC, na mesa-redonda "O papel da metrologia moderna no desenvolvimento científico e tecnológico do país". Em atuação desde 1905, o Nist é um dos laboratórios mais conceituados do mundo na área de metrologia química. A mesa-redonda teve a participação de Celso Kloss, da Rede Metrológica do Paraná e de Pedro Rosário, da Sociedade Brasileira de Metrologia (SBM).

Aragão destaca a experiência do Inmetro em programas de certificação envolvendo aspectos de sustentabilidade social e ambiental com o exemplo do Programa Brasileiro de Certificação Florestal (Cerflor), no qual toda madeira exportada pelo país é certificada. Para atender a exigências de sustentabilidade sócio-ambiental de compradores europeus, o Inmetro certifica 50% da madeira exportada no âmbito da iniciativa, iniciada em 2002, o que representa mais de US$ 8 bilhões por ano.

De acordo com Aragão, o acordo Inmetro-Nist nos biocombustíveis, terá o aval da Comunidade Européia com a assinatura do compromisso de que vão adotá-la no âmbito da Europa. Segundo ele, a medida preservará o país de cobranças como a recente feita pelo presidente da União Européia, Durão Barroso, no sentido de que o Brasil precisa comprovar emissões de CO2 e certificar a produção de biocombustíveis.

Além do estabelecimento de um padrão para o etanol e biocombustíveis que seja alvo de intercomparações, conforme Aragão, outras medidas estão sendo adotadas pelo Inmetro. Uma delas foi a constituição de um grupo liderado pelo presidente do Inmetro, João Jornada, que já iniciou busca de colaboração na academia brasileira, para elaborar a metodologia Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) ou Life Cycle Assessment (LCA), adotada por outros países para mensurar impactos de sistemas de produção de biocombustíveis, desde o plantio ao consumo, o refino, manufatura, transporte, uso direto e dejetos.

Aragão observa que a técnica ACV é aplicada ao Brasil por outros países, em estudos que aparecem como pano de fundo para críticas como a estampada na capa da edição de abril da revista Time, com o título "O mito da energia limpa". A reportagem bate no programa brasileiro de biocombustíveis, que "podem não ser uma promessa mas, ao contrário, um desastre. A solução falsa, o etanol, tido como economicamente amigável, é um desastre". A abordagem da revista, diz Aragão, não tem nenhuma base.

Um exemplo de uso da ACV citado por Aragão é um estudo do governo alemão-MOA com dados superdimensionados sobre mudança da terra para a produção de biocombustíveis, dando como resultado um balanço ambientalmente negativo para o Brasil. O enfoque, para ele, não resiste a uma avaliação metrológica mais simples, pela incerteza de dados ao sabor de interesses políticos e sociais para que venha a ser aceita internacionalmente.

A ACV tem sido contestada por um grupo de cientistas norte-americanos liderado por Mary Dnichols, chairman da California Air Resources, que aponta a ausência de cunho científico da técnica usada para medir alguns impactos. "É biomistificação, uma biofalácia", afirma Aragão após citar o estudo da pesquisadora. Por isso, segundo ele, o Brasil irá fazer um estudo de forma adequada para ter uma avaliação crítica usando o paradigma ISO 14.040.

Na área de biocombustíveis – acrescenta Aragão - o Inmetro está desenvolvendo estudos sobre seus aspectos científicos e técnicos, incluindo a produção de padrões metrológicos confiáveis e reconhecidos internacionalmente, em projeto em parceria com o Nist. "Já foram produzidos vários materiais de referência, bem como intercomparações laboratoriais", informa.

Segundo ele, em relação aos biocombustíveis, a legislação dos países desenvolvidos procura introduzir aspectos ambientais, tais como uso do solo, contaminação de lençóis de água, uso de pesticidas e outros, através da técnica denominada ACV. Conforme Aragão, "ACV é uma técnica relativamente recente que busca calcular todos os impactos ambientais associados a um dado produto.

"A análise de ACV é um desafio, pois além de exigir uma enorme quantidade de informações busca comparar quantidades diferentes de uma maneira que requer muita explicação e interpretação", observa Aragão. Em relatório técnico apresentado sobre o assunto, o grupo do Inmetro concluiu que "o problema fundamental da técnica ACV, quando usada para incluir alguns impactos, a exemplo do uso indireto da terra, é que essa abordagem leva a resultados simplistas e pouco confiáveis, obtidos a partir de uma escolha extremamente subjetiva dos impactos e dos valores atribuídos a cada um deles".

Até o presente momento, têm sidos discutidos, principalmente na Europa, vários esquemas de Avaliação da Conformidade, especialmente esquemas de Certificação, voltados aos aspectos sócio-ambientais dos biocombustíveis. No entanto, nenhum deles foi ainda efetivamente implementado, conta Aragão.

A posição tem como principal razão a complexidade do assunto e da dificuldade em detalhar objetivamente o conjunto de requisitos específicos que traduzam os critérios de sustentabilidade sócio-ambiental de uma forma clara, objetiva, representativa e com razoável consenso, informa Aragão.

Segundo ele, este consenso não chegou aos mais importantes grupos de interessados - fornecedores, clientes e governos, além de grupos de pressão atuantes nesse terreno -, notadamente os ambientalistas e os produtores locais.

Celso Kloss define metrologia como a ciência (pesquisa, desenvolvimento, guarda, manutenção e disseminação de padrões) e a tecnologia (aplicações na indústria, comércio e serviços) das medições.

"No estágio de globalização atual, segundo ele, barreiras técnicas são impostas às exportações. As barreiras comerciais são derivadas da utilização de normas ou regulamentos técnicos não transparentes ou que não se baseiam em normas internacionalmente aceitas ou, ainda, decorrentes da adoção de procedimentos de avaliação da conformidade não transparentes e/ou demasiadamente dispendiosos, bem como de inspeções excessivamente rigorosas", disse ele.